terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Brasil tem cerca de cem candidatos a santos católicos

Guido Schäffer, seminarista e surfista, morreu afogado em 2009 e é um dos cerca de cem candidatos brasileiros à santidade Foto: Arquidiocese / Divulgação
Guido Schäffer, seminarista e surfista, morreu afogado em 2009 e é um dos cerca de cem candidatos brasileiros à santidade

Florianópolis, 18 de outubro de 1991. O Papa João Paulo II cumpria uma maratona no país — em dez dias, visitou dez capitais. Na capital catarinense, aproveitou a celebração da beatificação de Madre Paulina para encaixar uma opinião pessoal: “O Brasil precisa de santos, de muitos santos”.
Foi a senha para o início de uma força-tarefa que está inserindo cada vez mais compatriotas na fila pelo título mais prestigiado da Igreja Católica. Por enquanto, poucos conquistaram a canonização.
Até o ano passado, o único brasileiro a ser declarado santo, com decreto assinado em 2007 pelo Papa Bento XVI, havia sido o Frei Galvão. O jejum acabou quando Francisco deu a mesma honraria a 30 mártires do Rio Grande do Norte.
Também são considerados santos nacionais a Madre Paulina, nascida na Itália, e o espanhol São José de Anchieta, mas o país corre atrás de mais reconhecimentos. Por isso, hoje estima-se que cerca de 90 comissões postuladoras da causa dos santos estejam montando processos de quase cem candidatos à canonização.

Os passos para a santidade - É um caminho complexo e demorado. Normalmente, o postulante se torna um “servo de Deus”, com a abertura do procedimento. Se ele apresentar as virtudes necessárias, é proclamado “venerável”. Caso se prove um milagre por sua graça, é beatificado. A canonização acontece com a comprovação de um segundo milagre.
Hoje, mais de 130 brasileiros são considerados pela Igreja servos de Deus, veneráveis ou beatos.

Odete Vidal de Oliveira, a Odetinha, morreu aos 9 anos de paratifo, doença bacteriana: organizava refeições beneficentes, fazia doações para moradores de rua e convenceu os pais a começar uma obra social para meninas órfãs Foto: Reprodução
Odete Vidal de Oliveira, a Odetinha, morreu aos 9 anos de paratifo, doença bacteriana

É o caso de Odete Vidal de Oliveira, a Odetinha, uma menina que viveu na década de 1930 em Botafogo, na Zona Sul do Rio. A menina, morta aos 9 anos de paratifo, uma doença de origem bacteriana, impressionou os católicos por suas obras de caridade. Organizava refeições beneficentes, fazia doações para mendigos e convenceu os pais a começar uma obra social para meninas órfãs. Hoje, ela é considerada serva de Deus.
Odetinha chegou ao Vaticano graças à dedicação do padre João Cláudio, que passou quatro anos montando sua biografia, baseado em entrevistas com testemunhas, pesquisas de campo e análise de documentos. E assegura que está pronto para levar o caso a um tribunal eclesiástico, que investigará a santidade da menina.

— Uma pessoa só pode ser canonizada se for comprovado que ela cumpriu dois milagres. Vi centenas de relatos interessantes, como pessoas que, após orarem por ela, curaram-se de câncer terminal e sobreviveram a acidentes e a atos de violência, como tentativas de assassinato.

João Cláudio integra a Comissão da Arquidiocese do Rio de Janeiro para a Causa dos Santos, presidida por Dom Roberto Lopes. A equipe, formada em 2011, também conseguiu o título de servo de Deus para Guido Vidal França Schäffer. O médico e seminarista atendia gratuitamente a moradores de rua. Ele morreu afogado aos 34 anos, enquanto surfava, em 2009.

- Entrevistamos mais de 30 pessoas para mostrar o caso de Guido ao Vaticano, e depois será montada sua biografia oficial. E estamos recebendo milagres que serão apurados por uma equipe científica. Esperamos que ele e Odetinha sejam os primeiros beatos do Rio, o último passo antes da canonização.

Princesa Isabel em 2019 - No ano que vem, a comissão pode iniciar a candidatura à canonização da Princesa Isabel, que assinou a abolição da escravatura no país em 1888. Mas o processo já provoca controvérsias, porque uma corrente de historiadores defende que outras pessoas, que não tiveram uma posição privilegiada na sociedade, foram mais combativos na libertação dos escravos. Desta forma, seriam mais dignos de reconhecimento.

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