A Polícia Civil do Ceará (PCCE) investiga a relação entre uma facção
criminosa e políticos do estado após encontrar conversas no celular de um líder
da organização. Conforme as apurações policiais, o traficante Marcos da Silva
Pereira, conhecido como 'Marquim Chinês', mantinha contatos com um prefeito do
interior do Ceará, um ex-secretário estadual e um candidato a vereador por
Fortaleza.
Em setembro do ano passado, 'Marquim' tentou destruir o aparelho
celular durante uma perseguição policial, que culminou em sua prisão, após
investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).
Ao ser questionado pela polícia sobre o motivo de ter quebrado o telefone, o
preso respondeu que "deu uma doida em mim, aí eu quebrei o celular"
e, depois, alegou que tinha conteúdo íntimo nas mídias.
Os investigadores estranharam a ação e solicitaram à Justiça o acesso
ao conteúdo do celular. Após a ordem judicial, equipes da Perícia Forense do
Ceará (Pefoce) e do Departamento de Inteligência da Polícia Civil (DIP)
recuperaram e extraíram os dados do chip, quando conseguiram chegar às ligações
suspeitas entre o líder da facção e os políticos.
Um dos números de telefone com quem 'Marquim' mantinha contato, via
WhatsApp, era do atual prefeito do Município de Palhano, Ivanildo Nunes da
Silva, o 'Dinho Nunes' (PT) - eleito em 2016 com 59,6% dos votos. A
investigação não conseguiu recuperar mensagens trocadas, mas concluiu "não
restar dúvidas de que o prefeito estava mantendo contato pelo WhatsApp com um
dos líderes da GDE".
O preso também conversava com o ex-secretário adjunto do Esporte, do
Governo do Estado, Marcos Antônio Lage de Souza - que utilizava o celular institucional
para se comunicar. A Polícia Civil encontrou mensagens em que Margos Lage dizia
"Bom dia, meu amigo. Sdds (saudades) de vc (você). Agora q (que) terminou a
eleição. Vamos resolver viu".
O ex-secretário estadual prestou depoimento à Draco, no fim de 2018, e
negou qualquer relação criminosa com a facção. Ele relatou que foi procurado
por 'Marquim Chinês' durante uma visita a um projeto social a uma comunidade no
Bairro Papicu, em Fortaleza, quando o mesmo se apresentou como pai de uma
criança e perguntou sobre a possibilidade de o projeto receber material
esportivo da Secretaria. Segundo Marcos Lage, a palavra "resolver"
utilizada na mensagem se referia à distribuição do material, que não podia ser
feita durante o período eleitoral.
Os investigadores também encontraram conversas entre 'Marquim' e o
empresário José Werther Nascimento da Silva, o 'Werther Móveis' (PRTB),
candidato a vereador por Fortaleza em 2012 - e não eleito. Em um dos diálogos,
o candidato chama o homem que viria a ser preso de "patrão".
Conversa com preso - Outro registro descoberto por meio dos
dados do chip foi a comunicação de 'Marquim Chinês' com um preso do Instituto
Penal Professor Olavo Oliveira (IPPOO) II, que se encontra recolhido na Unidade
desde junho de 2017. Segundo a investigação, ele é considerado perigoso, com
histórico de resgates dentro de unidades penitenciárias.
Perfil do preso - Segundo a polícia, ‘Marquim’ é um dos
fundadores de uma organização criminosa e principal responsável pelo tráfico de
drogas nos bairros Papicu, Meireles e Praia do Futuro, em Fortaleza. A polícia
acredita que ele distribuía 100 kg de entorpecentes por mês e também estaria
ligado a homicídios ocorridos na região.
O preso confessou, em depoimento, que havia sido "batizado"
pela facção, mas negou a liderança e alegou que é morador de uma comunidade no
Papicu – que é dominada pela organização criminosa – e o ato de recusar a
filiação poderia resultar em sua morte.
Nenhum comentário:
Postar um comentário